ASPECTOS REGIONAIS EM GRANDES SERTÕES: VEREDAS DE GUIMARÃES ROSA
Esta comunicação se propõe a apresentar a visão regionalista com
que Guimarães Rosa retrata a realidade do sertão brasileiro em Grandes
sertões: veredas, à luz da crítica literária proposta por Bosi, Antonio
Candido, entre outros. É por meio da personagem Riobaldo,
homem sertanejo, de pouca instrução, ex-jagunço, que o autor explicita a
estruturação marcada pelas reflexões urbanas em oposição ao homem do campo.
Riobaldo é, pois, narrador personagem e, como tal, fala das "veredas"
que representam a idealização sóbria da realidade sertaneja e narra suas
memórias de jagunçagem e principalmente das suas inquietações em relação à "o
coisa ruim" com qual se tornou pactário. Entretanto o tema central do
romance gira em torno do amor proibido de Riobaldo por Diadorim, um jagunço
como ele.
PALAVRAS-CHAVE: Regionalismo,
Guimarães Rosa, Grandes Sertões:veredas
Objetiva este trabalho analisar a obra:
GRANDE SERTÃO: veredas, de Guimarães Rosa, a luz dos críticos Antonio Candido e
Alfredo Bosi e outros, na perspectiva do regionalismo brasileiro predominante
na sua construção. A tradição regionalista define como mais importante os
temas, a linguagem, sua forma e estilo estético, que o insere no processo de
transição de uma sociedade assentada na agricultura para uma sociedade de
produção industrial. Não há consciência social e a dimensão temática é menos
importante do que a dimensão lingüística, pois parece criar uma outra
realidade, em que a palavra transcende, como se valesse por si mesma. Para
Antonio Candido, a obra é carregada de simbolismo, onde os dados da realidade
física e social constituem o ponto de partida. O autor não apenas sugere o real
de um modo nada realista, mas, elabora estrutura verbais, autônomas criadora
por si mesma, e transforma o particular da região num universo sem limites, que
exprime não apenas o sertanejo, mas o “homem humano”. Este perfil regionalista
é traçado a partir das influencias econômicas sociais e políticas como reflexo
da crise internacional que repercutiam, promovendo o aumento do inconformismo
com o modelo econômico. Grande Sertão é de forma geral obra ficcional com
origens histórica e social, com o caráter regionalista, mas, é também
considerado pelos críticos como romance urbano, pois contrapõe o rural com o
urbano, o sertanejo com o homem da cidade, e trata das veredas como um mergulho
profundo na realidade essencial brasileira.
Guimarães Rosa desenvolve uma narrativa
ambígua cuja linguagem usada é inventiva, em que sai do lugar comum a fim de
dar maior ênfase ao discurso, Nu da cintura para os queixos (ao
invés de nu da cintura para cima) e ainda Não sabiam de
nada coisíssima (no lugar de não sabiam de coisa alguma),
que constituem exemplos do apuramento desta linguagem. Toda a narrativa é
marcada pela oralidade, na qual Riobaldo conta seus casos a um interlocutor,
sem que haja, possibilidades de reformulação. Percebe-se a intenção de
Riobaldo em reafirmar
o que diz utilizando a própria linguagem. A fala coloquial associado a
brasileirismos e neologismos faz com que o autor ultrapasse os limites de sua
região, bem como os elementos e níveis, como por exemplo os paradoxos:
narração, temas motivos, relação entre os personagens, diálogo etc. O autor faz
abordagens que nos permite analisar as oposições construídas no texto como:
narração e especulação; crença e dúvida; deus e diabo; passado e presente;
masculino e feminino; heterossexual e homossexual; jagunço e proprietário
rural; reflexão e ação; eterno e instante, apontando para o passado, vivido no
sertão e a vida de jagunço que se caracterizou um ícone do sertão brasileiro.
Na visão de Bosi a obra constitui um
retrato do Brasil, por apresentar características que demonstrem a realidade da
região nordestina castigada pela pobreza, miséria, analfabetismo e abandono,
contrapondo aos grandes latifúndios, e domínio dos mais fortes, tanto social
quanto financeira e cultural. Há muitas contradições quando faz as afirmações:
"em que as coisas são e não são" conforme a narrativa de Riobaldo,
que constantemente se questiona em seu diálogo na tentativa de explicar suas
inquietações.
"É e não é. O
senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso
feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom
amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi
muitas nuvens. Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as
pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão
sempre mudando. Afinam e desafinam." (Bosi, 1994)
A vida sertaneja define características
como o verdadeiro e autêntico regional, que projeta e conquista dimensão
universal. Conforme Candido afirma: "o homem é o homem no sertão
de Minas ou em qualquer outro lugar do mundo". Afinal o
jaguncismo é a forma de estabelecer a ordem, ora o jagunço é visto como o
transgressor, e ora como representante da lei. O jagunço no sertão adota
condutas e posturas de guerras e aventuras compatíveis com o meio, embora
muitas vezes possa se contradizer por atitudes contrárias. O romance possui
também características urbanas e se identifica pelas contradições no processo
de modernização, centrado nos vencedores e perdedores, e se estrutura no tempo
psicológico, de narrativa irregular acrescidas de pequenas estórias. Trata-se
de uma narrativa densa, repleta de reflexões.
Quanto aos personagens, segundo Afrânio
Coutinho caracterizam-se por:
Riobaldo: é personagem principal e
narrador, se dedica a contar sua estória a um ouvinte que nunca se manifesta.
Relata sua infância, a breve carreira de professor (de Zé Bebelo), até sua
entrada no cangaço (de jagunço Tatarana a chefe Urutu-Branco), estabelecendo-se
posteriormente às margens do São Francisco como um pacato fazendeiro. Seu
personagem apresenta três facetas: Riobaldo, o jagunço, herói
problemático, pois se inicia no jaguncismo com personalidade estável, um
jagunço com senso de justiça; o pactário, é transformado em herói
resoluto, sofrendo profundas alterações em seu caráter, comportamentos e
atitudes, como se fosse o seu avesso, agora mais determinado e impulsivo,
porém, trai a si mesmo, e o místico, herói frustrado, a
partir do qual se dá a narração. Segundo Antonio Candido a partir do pacto é
possível enxergar o jagunço comum e sua transformação no jagunço destemido, e
isso é revelado pelo autor nas atitudes tomadas por Riobaldo quando o bando
extravia-se na vastidão de Minas, e acaba por entrar em um espaço lendário, sem
marcas geográficas, sem nomes certos, povoados por gente estranha, dominada
pela doença que na verdade exprime a doença da alma. Seu modo de ser é alterado
e somente após o pacto ele pode realizar seu projeto de vingança e destruição
de Hermógenes. A própria narrativa parece cooperar a seu favor, pois antes era
ele quem perseguia o bando do inimigo, agora é o mundo que vem a seu encontro,
com o rapto da mulher do inimigo o bando vingador consegue forçar o encontro
dos grupos no qual se define o desfecho final da história. Riobaldo foi aquele,
para quem as coisas impossíveis tornaram-se possíveis, consegue levar os outros
a mera condição de figurantes. Ele também vivencia três faces amorosas:
Norinha: prostituta,
representa o amor físico. O seu caráter profano e sensual atrai Riobaldo, mas
somente no aspecto carnal.
Otacília: Riobaldo destina a
ela o seu amor verdadeiro ao contrário de Nhorinhá. E ela é constantemente
evocada pelo narrador quando este se encontrava desolado e saudoso durante sua
vida de jagunço. Recebe a pedra de topázio de "seô Habão",
simbolizando o noivado.
Diadorim : Esta sim,
representa o amor impossível, proibido. Ao mesmo tempo em que se mostra
bastante sensível com uma bela paisagem, é capaz de matar a sangue frio. É ela
que causa grande conflito em Riobaldo, sendo objeto de desejo e repulsa por
conta de sua pseudo identidade. A questão desdobra-se de amar um homem para
amar uma mulher que se faz passar por homem, segundo a Professora e Dra.
Walnice, em seu artigo – RIOBALDO / DIADORIM E O TEMA DA HOMOSEXUALIDADE – o
autor leva-nos crer que a identidade mulher de Diadorim sempre esteve presente.
Os amores por Nhorinhá e Otacília são por vezes, tentativa de suplantar o
sentimento intenso nutrido por um jagunço, companheiro de armas um amor
homossexual, uma vez que desconhece a verdadeira identidade de Diadorim. Mas se
a verdadeira identidade dela fosse revelada a Riobaldo, teria ele a amado tão
intensamente? Será que seu encanto não teria se desintegrado pela rotina e o
comodismo do amor conjugal? Ou seja, Diadorim não se tornaria igual às outras
tantas mulheres com quem se envolveu? Em toda a obra Riobaldo fala de Diadorim
com uma espécie de fascínio, embora no íntimo repudie a possibilidade deste
sentimento. Descreve-a com admiração, respeito e encanto pelos trejeitos do
jagunço guerreiro, porém, sensível e de gestos delicados, mas ao mesmo tempo
capaz de uma coragem invejável. Riobaldo amou profundamente o Reinaldo, o
guerreiro, o jagunço. (...) mas, a voz dele era tanto-tanto para o
embalo de meu corpo. Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando
por debaixo de um arco-íris. Ah!, eu pudesse mesmo gostar dele – os
gostares..., segundo afirma a Dra, estes sentimentos são orientados
pela vontade e recuo, entre impossível e a relação possível.
Como personagem secundário, temos:
Diadorim, é o jagunço Reinaldo, integrante do bando de Joca Ramiro. Esconde sua
identidade real (Maria Deodorina) disfarçado de homem. Tem seu segredo revelado
na sua morte. Zé Bebelo: personalidade com anseios políticos que acaba por
formar bando de jagunços para combater Joca Ramiro. sai perdedor, sendo exilado
para Goiás e acaba por retornar com a morte do grande chefe para vingar o seu
assassinato. Joca Ramiro: é o chefe maioral dos jagunços, mostrando um senso de
justiça e ponderação no julgamento de Zé Bebelo, sendo bastante admirado e
respeitado, quase que num ato de adoração pelos outros jagunços.. Medeiro Vaz:
é o chefe de jagunços que se une aos homens de Joca Ramiro para combater contra
Hermógenes e Ricardão. Estes são os traidores, e chamados de "Judas",
responsáveis pela morte de Joca Ramiro. Muitos jagunços acreditavam que
Hermógenes havia feito o pacto com o Diabo, por isso a sua fama de valentia e
crueldade. Só Candelário: outro chefe que ajuda na vingança possuía grande
temor de contrair lepra. Quelemém: compadre e confidente de Riobaldo, que o
ajuda em suas dúvidas e inquietações sobre o Homem e o mundo.
Segundo Bosi, Riobaldo é um homem que
busca no vaivém de suas memórias e reflexões, negar a existência real do
demônio, com quem fez pacto para vencer o Hermógenes e conclui que o Mal é um
atributo do ser, em constantes questionamentos com relação a real existência de
Deus e Diabo numa tentativa de aliviar sua consciência pelo acordo firmado,
embora em alguns momentos ele parece não acreditar na efetivação do pacto, pois
não presenciou nada palpável que pudesse dar garantias do acordo. Durante todo
o enredo ele se pergunta se de fato o coisa ruim existe, se
existe Deus também. Contudo, apesar do pacto não lhe foi concedido derrotar
Hermógenes, coube a Diadorim o desfecho final, em que num embate fatal ambos
tombaram. Hermógenes finalmente derrotado e Joca Ramiro vingado, Diadorim
cumpria sua promessa. A Riobaldo restou o gosto amargo da derrota e frustração,
pois se ausenta na hora final, e nesse desenlace perdeu o que lhe era precioso,
e quando chamado para receber o corpo, outro golpe lhe atinge em cheio.
Diadorim, seu grande amor é mulher. O que mais lhe resta se não remoer suas
frustrações? Frustrado da cabeça aos pés mergulha na contemplação da religiosidade,
recolhe-se ao seu pequeno mundo, rompendo com o mundo dos homens vivos, vive as
contradições da vida humana.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOSI , Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira.
São Paulo, Cultrix, 1988.
CASTRO, Nei Leandro de. Universo e Vocabulário do Grande Sertão,
20 ed., Rio de Janeiro, Achiamé, 1982.
COUTINHO, Afrânio dos Santos; COUTINHO, Eduardo de Faria. A
Literatura no Brasil, Era Modernista. 6 ed. Ver. E Atual. São Paulo:
Global, 2001..
ROSA , João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira , 1986.
WILALVA, Walnice Matos. Artigo – Riobaldo / Diadorim e o tema da
homossexualidade. Revista Cerrados. Profª. Drª. Teoria da Literatura, 2007.
Texto escrito por Mirian Coelho de Oliveira e apresentado na Semana de Letras na UNEMAT em Tangará da Serra.
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